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Full text of "Necrologia de Hilario Maximiano Antunes Gurjão: bacharel em mathematicas e brigadeiro do exercito .."

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¡NECROLOGIA 

DO 

BRIGADE1RO GURJÁO. 



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S. LUIZ.— Imp. por B. de Mallos, Typ. rúa da Paz, 



NECROLOGIA 



DE 



HILARIO MAX1MIAN0 ANTUNES GURJAO 



Bacharel era mathematicas e brigadeiro do exercito; cavallciro das ordens de. S. Ben- 
to de Aviz, Christo c Rosa; cómmendador das ordens de Christo e da Rosa; 
Dignitario da imperial ordem do Cruzeiro; condecorado cora a rae- 
dalua de ouro do Uruguay e com outras medalhas de c&mpanha: 



• MOKTO KM HUMAYTÁ KM 17 DE JANEIRO DE 1809, DO HONROSO FEKIMENTO QUE 
EÉCEBKO NO COMBATE DE DBZEMBRO DE 18ÜS. 



PRECEDIDA DE (JAI PROLOGO OU ELOÍÜO HISTORICO 



PULI í^EU TIO E AMIGO 



ANTONIO AGOSTINHO DE ANDRADE FIGUEIRA. 




S. LUIZ DO MARANHAO. 



1869- 



SIRVA DE PROLOGO. 



O nome do general Gurjáo em um opúsculo é bastante para ser 
este lido com ¡nterésse. 

A necrología do general Gurjáo teni cm si esta recommendacao: é 
a historia do héroe de Itororó. 

Tracada sobre os snceessos de sua vida desde a innocencia da in- 
fancia,, a necrología do brigadeiro Hilario Maximiano Antunes Gur- 
jáo, é o complexo de actos que. um a um, denunciam um carácter 
firme e recto, humano e aflavel; um genio piedoso e christao: um 
soldado de disciplina sem sobeja severidade; um militar com ameni- 
dade natural e sempre proveitosa brando ra. 

O pendor que de menino se lhe conheceo para e^tes predica- 
dos, que o collocam entre os brazileiros distinctos, se lhe alentou 
e robusteceo ñas calamidades porque passou sua provincia natal, 
quando elle apenas entrava na juventude. Os acontecimentos anor- 



6 

maes, na provincia e no imperio, que para outro vedarían» es tu dar, 
nao Ihe embargaran! os estudos secundarios, que cursou no tneio dos 
trabalhos de soldado, trabalhos sempre improbos. 

A estima que, desde o comeeo da vida militar, grangeou de seos 
superiores, e o apreco em que veio a ser tido por sua intelligencn, 
trouxcram-lhe a remuneradlo de seos servidos na elevadlo dos pos- 
tos alé capitao, sem o desvanecerem; e se nelle para aiguma eousa 
contribuirán! fui para mais o confirmar no designio de proseguir 
nos estudos na escola militar, agueando-lhe o desejo de possuir as 
riquezas da scieneia que completa a educacao militar. 

Subordinado jamáis deixou aos cuidados do chefe á eorreccao 
das faltas dos que o eram a elle: no fiscalizar eonciliava energía com 
afabilidade 

Seo chefe commandava sem neeessidade de emendar: assentia 
em tudo, com tudo se conformava. 

Como commandante, como chefe, sabia adocar sua auctoridade. 

Seo proceder brando sem quebra da dignidade infundía respeito 
e venera cao: Seos subordinados, conscios de que Ihes nao ficaria 
sem castigo urna falta notavel, evitaváo commettel-a, nao por temor, 
mas para que nao deixassem de contribuir para a necessaria disci- 
plina, pautando seo proceder pelo de seo chefe. 

De portas a dentro, sempre se houve com seos companheiros de 
habilacao por idéntico theor. 

(ñiegada a hora do estudo, para elle os chamava com o riso nos 
labios. 

Todos obcdeciam ao amigo que favorecía, no len ticular, a educa- 
cao de jovens seos comprovincianos. 
No theatro da guerra, nao esperara que o Sino de ^co amigo, o 



7 

seo párente, o seo conhccido, Ihe pedissem auxilio—sabia antecipar 
espontaneo soccorro aos que o haviam mister. 

Já eu disse que a necrología do general Gurjao é a serie de actos 
que descrevem suas virtudes e merecimento desde a juventude, des- 
de soldado até general. 

Os amigos, que o conhé£eram de per^o, o reconhecerao na des- 
eripQáo de seos actos 

Os que nao o conheceram, terao satisfacáo em ler corno o soldado 
pode ser severo e ameno, justo e urbano. 

Os paraenses terao prazer de ver como este seo comprovinciano 
soube fazer-se digno do alto cargo de general, e como nao hesitou 
em lomar a prioridade no sacrificio de sua vida para manter os 
bríos do soldado brazileiro. 

Gotn lagrimas leráo os que o viram menino, os que o acalen- 
tarara no bergo, como tao repentinamente o menino Gurjao foi sol- 
dado, general e até beroc de Itororól 

Tudo quanto bei dito nao é tao expressivo, como o epilogo deseos 
actos definido pelo modo por que conduzio-se no combate de Itororó, 
em que foi gloriosamente ferido. 

Na diííiculdade em que se achava a divisao (jue commandava, no 
critico estado a que seos valerosos soldados se viram reduzidos, re- 
chazados tres vezes ñas tres vezes que haviam tomado a ponte de 
Itororó, antevendo que a derrota desta accao ennegrecería, com de- 
san a bandeira brazileira, nao usou das vozes imperativas de com- 
mandante, náoproferio palavra que revelasse auctoridade; mas, col- 
locando-se á frente da divisao, mostrou que podiam vencer, que o 
soldado deve avanear— ou para ganbar ou para morrer; usou, emfim 
destas palavras que, cbeias de amenidade, indicavam que o chefe re- 



8 

conlmendava novamente avancar e— vencer ou morrer— Vejam como 

MOR RE UM GENERAL BRAZILEIRO! 

Nestas palavras, dobradamente fatídica?, está o epilogo de suas 
virtudes militares. 



ANTONIO AGOSTINHO DE ANDRADE FIGUEIRA. 



Nao era cu, por certo, o mais competente para escrever a necro- 
logía de meo prezado e distincto irmao o brigadeiro do cxercito Hi- 
lario Maximiano Antunes Gurjáo. 

Baldo dos precisos conhecimentos para fazer similhante trabalho 
«iii estylo condigno do assnmpto, o transido da profunda magpa que 
gravou em meo cora^ao a sua prematura e sentida monte aínda mais 
difflcil se me tornava esta empreza. 

Poi-me, porém. forzoso aquiescer a o desojo de mu i tos do nossos 
communs amigos, como de tantos outros apreciadores da memo- 
ria e das eminentes qualidades de meo sempre chorado e estimado 
ir nía o. 

Grato, além disto, nos prestírnosos cavalleiros que pressurosos se 
anteeiparam em promover assignaturas para as despezas com a im- 
pressao desta obra, assim com:» aos que tiveram a bondade de sub- 
screver para ella, nao hesitei mais. e tratei de escrevel-a, segundo 
minhas forcas, servindo-me dos elementos que possuo, eque sao: as 
cartas que meo bom irmao regularmente e sem interrupcao me es- 



10 

erevia da campanha; parte da sua fé de officio que comprehende 
os relevantes serviros nella prestados desde a época em que mar- 
chou eom seo batalhao do Rio de Janeiro para Buenos-Ayres até 
quando fui promovido a brigadeiro, e, principalmente, o livro de 
apontamentos de sua vida, que me fui enviado por seo digno filho e 
meo estimado sobrinho doutor Joáo Maximiano Antunes Gurjáo, li- 
vro que para mim é um thesouro precioso. 

Neste livro, em que meo presado irmáo, por sua propria letra, 
escreveo chronologica e singehunente,, coma sinceridade que lhe era 
peculiar, todos os factos de sua vida militar e íntima até 26 de Ou- 
tubro de 1868, apparece em relevo sua reconhecida modestia assim 
com a austeridade que elle exercia para coinsigo mesmo. 

Se pelas rasoes adduzidas nao devia ser eu qaem escrevesse a his- 
toria de sua vida militar, por outro lado a reciproca e intima amisade 
e fraternidade que sempre nos ligón, e o ter-me cabido como mais 
velho, depois do passamento denossos adorados progenitores, a ta- 
refa de educar meos irmaos.no que elle tambem assás me auxiliou, 
me constituía na obrigaeáo de, bem que em linguagem rude e singó- 
la, campar este opúsculo, no qual a carencia das condicoes deseja- 
veis será supprida pela expressao genuina da verdade. 

Embora deficiente e mal coodernado, como solí o primeiro a reco- 
nhecer. espero que merecerá, após benigno aeolhimento, a indulgen- 
cia devida. 

Belém, 13 de Abril de 1869. 

Francisco Pedro Gurjao. 



NECROLOGIA. 



Hilario Maximiano Anlunes Gurjáo, Qlbó legitimo do ma- 
jor Hilario Podio Gurjáo, c D. Arma Dorothéa de Andrade 
Gurjáo, nato raes da provincia do Para, descerniendo, por 
linha genealógica de seo avó paterno Francisco Pedro Gur- 
jáo, do 18.° governador e capitao general do estado doMa- 
ranháo e Gram-Pará Francisco Pedro de Mcndonca Gurjáo, 
nasceo na cidade de Bellem, capital da mesma provincia, 
em 21 de fevereiro de 1820. 

A inda na infancia deixou ver pronunciada tendencia na- 
tural aos estudos, preíerindo ficar entregue aos cuidados 
de sua tia materna, e mae de educacao, D. Ilyppolita Cas- 
siana de Andrade, em agosto de i 825, quando seu pai, á 
quem foi dada a commissao de governador do Rio Negro, 
para ahí partió com sua familia. 

Recebéo os rudimentos de sua primeira educacao em casa 
de seo avó materno sob os disvelos de sua carinhosa máe 
e tia. 



\2 

As commoeoes políticas, que, ao terminar o armo dé 
1834, se prminciaram no Para, obrigaram-no a suspender 
seos estudos secundarios já iniciados com feliz aproveita- 
mento; e, notado pela dedicacáo aos estudos, nao o foi 
menos no amor á seo paiz, prestando, aínda mui joven, ser- 
vidos ao governo monarcbico constitucional, desde 1835 
qtiando, sob a presidencia do general Manoel Jorge Rodri- 
gues, foi um dos cidadaos soldados que compuzeram o cor- 
po de voluntarios de — Pedro 2.°-- -entáo creado para sus- 
tentáculo da ordem. 

Inspirou-se dos primeiros e briosos sen timen tos de solda- 
do valoroso na fileira dos denodados que combattiam pelo 
governo, commandados pelo valente capitao Jeronymo Her- 
culano Rodrigues, durante os luctuosos dias de agosto. 

O veterano general xtyíanoel Jorge Rodrigues o armón sol- 
dado brazileiro, e o valeroso capitao Herculano, victima da 
propria intrepidez, Ihe deo o primeiro exemplo de valor. Com 
tal denodo e intrepidez se portón o nosso Gurjao. que 
seo pai, militar veterano e amigo da disciplina, fazendo-llie 
acolhimento lisongeiro, nem por isso dei.xou de recom- 
mendar-lhe mais prudencia e menos temeridade. 

Eoa 1836, alistado no corpo de cidadaos voluntarios sob 
que o general Andréas arrigimentou, era Uarapiranga. os 
que haviam permanecido obedientes ao governo legal, des- 
tacou para bordo da escuna Bella-Maria que veio fundear 
na linba do bloqueio posto á cidade, em frente da fazenda 
Pedreira—occupada pelos revoltosos. 

No memoravel dia 13 de maio de IS3(> raarchou ñas íl- 
leiras dos cidadaos soldados que, faziam parte do exercito 
libertador, que resgatou da oppressáo revolucionaria a ca- 



13 



pital desta provincia, como am dos combatientes que com- 
punham a tropa legal, que desembarcou de bordo daquella 
escuna no ponto da — Pedreira. 

Já entao, sem o saber, pertencia á primeira linha que, 
desde o 1.° de maio. o comprehendia como voluntario no 
5.° batalháo de caradores, offerecido por seo pai o major 
Hilario Pedro Gurjáo. 

Nesse mesmo auno, em 7 de agosto, foi ura dos que com- 
puzeram as forjas que, sob o commando do coronel Joa- 
quina José Luiz, o governo Tez marchar ao Acara para libér- 
talo do poder dos revoltosos, e ahi entrón nos conflictos 
marciaes que se deram nos dias 2 e 20 de setembro. Nesta 
expedidlo commandou sempre nina forca, no posto de 1.° 
sargento que entao occupava. 

Recolbida a seos quarteis a Corra expedicionaria, procu- 
ro», concluir seos estudos secundarios, abrindo os livros e 
frecuentando a> aulas ñas horas em que o escolástico se 
conciba va com o servido militar. 

Sem faltar aos deveres de soldado conseguio ultimar seos 
estudos. 

Em 2(> dejulho de 1839 marchou em diligencia para a 
[iraca e cidade de Macapá, no commando e direccao da tro- 
pa que foi ahi revocar á obediencia os revoltosos e resta- 
belecer a ordem publica. Sua comrnissao foi concluida feliz 
e plenamente. Já entao gosava das honras de official do 
exereito para que f'ora no mea do desde 38)18. 

Reeolhcndo-se á capital em 19 de novembro do mesmo 
anuo, foi escolbido para instructor do corpo policial da pro- 
vincia, e permaneceo nesta comrnissao alé 3 de marco de 
1841. Consecutivamente foi nomeado para servir no 9.° ba- 



14 



talhao de cagado res, onde occupando os cargos de ajudan- 
te e de secretario mereceo que o commandante, em prdem 
do dia do batalháo de 8 de julho de 1842, o elogiasse por 
tel-o apresentado com muito aceio, e em dia a escripturacáo 
á sea cargo. 

Nao Ihe era desconhecido o dever do militar em todas 
as suas gradagóes. Sua primeira praca foi de simples sol- 
dado. 

Em 27 de novembro de 1837 a nobreza de sen pai eon- 
ferio-lhe as honras de i.° cadete, sendo entáo chamado para 
servir no quartel general. 

Teve o posto de alferes do 8.° batalháo de caladores por 
decreto de 28 de agosto de 1838; o de tenente do 4.° ba- 
talháo, tambem de cae-adores, por decreto de 2 de junho 
de 1840 com antiguidade de 2 de dezembro de 1839; e por 
decreto de 7 de setembro de 1842, com antiguidade de 18 
de julho de 1841, o de capitáo do mesmo batalháo, ao qual 
teve de reunir-se, no baixo-Amazonas, onde se acbava em 
servico, seguindo com esse destino em 13 de marco de 1843- 
Regressou com o batalháo á capital em setembro do mes- 
mu anno. 

O general Andreas depositou nelle tanta confianza, que 
o incumbió de multas e importantes commissoes; assim 
como a inspirou aos delegados do governo imperial que, 
depois daquelle general, governaram a provincia. 

Em o ?.° de Janeiro de 1844 foi nomeado ajudante de 
ordens do commando das armas, que exerceo até 20 de Ja- 
neiro de 1845, cargo em que foi dispensado, sendo elogiado 
em ordem do dia pelo bem que o desempenhou. 

Em o mesmo dia 20 licenceado para ir estudar na esco- 



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la militar, partió para a corte, e aquí chegando a 20 ele fe- 
vereiro, immediatamente apresentou-se ao quartel-general 
que o mandou áddir ao 1.° balalbao de fuzileiros. 

Matriculado na escola militar, depois de approvado nos 
preparatorios de que fez exame no dia 27, assim como nos 
de babilitaeao, soube ser militar e estudante, passando, por 
decreto de 22 de junho de 1848, a pertencer ao l.° bata- 
Ihao de fuzileiros onde já eslava addido. 

Perseverante em todos os actos da vida, aceeitou, sem 
dilliculdade, brenca para estudar o 4.° armo com a clau- 
sula de íazer ao mesmo tempo o servico activo. 

Fecho u em 18Ü), por algum tempo, os livros de seos 
esludos académicos, e tomo u a espada para marebaí' em 18 
de margo com seo batalhao (1.° de fuzileiros) para a pro- 
vincia de Minas (ieraes aonde aportou a 19 de abril. 

O regresso de seo balalbao á capital do imperio em 22 
di; dezembro permittio que continuasse nos estudos da 
sciencia militar. Matriculado no 5.° anno,em marco de 1850, 
com a mesma clausula com que liouvera estudaclo no anno 
antecedente, mereceo, concíuindo os estudos, ser classifi- 
cado ira anno de artilharia por decreto de 2 de agosto de 

mi. > 

Em 20 de novembro de 1852 foi-lhe conferido o grao 
de bacbarel em sciencias matbematicas e naturaes. 

Transferido, por decreto de I I de dezembro de 18G2, 
para o 3.° balalbao de artilharia a pe, regressou ao Para em 
20 de janeiro de 1853, no posto de capitao. 

Hecolbeo-se ao seio da familia, quando se contavao jus- 
tamente oito annos que se acbava fó ra do paiz de seo nas- 
cimento. Conseguindo satisfazer seos desejos, voltava aos 



10 



lares paternos com sua intelligencia enriquecida e ¡Ilustra- 
da. Indisivel prazer e contentamento fraternal Ihe foi corn- 
mum com seos caros irmáos e com os mais párenles, abro- 
gándoos e repousando entre elles; mas. após este senti- 
mento, algumas lagrimas deslisarao-se-lhe pelas faces, ao 
lembrar-se de que na man sao dos justos, seos adorados 
pais, Ihe nao podiam dar a mao a beijar reverente, como 
o haviam feito quando partió. 

Nao Ihe permittio permanecer entre os seos, senao até o 
i.° de abril de 1853, a requisicao do conselheiro H.ercula- 
no Ferreira Penna, presidente nomeado para a provincia 
do Amasonas. 

Soldado acoslumado ao cumprimenlo de seos deveres, 
nao hesitou, e seguio em companhia da 1. a auctoridade da 
nova provincia do Amazonas, onde chegou a 2! do men- 
cionado mez. 

Foi-lhe logo dado o commando do contingente de 1. a li- 
nha. Á este servico annexou-se-lhe, por nomeagao da pre- 
sidencia de 9 de maio, a direcgao da cadeira publica de 
geometría que continuou a leccionar com approvacao. do mi- 
nisterio da guerra, assim como a das obras publicas geraes 
e provinciaes, por nomeagao da mesma presidencia de 20 
de setembro. 

No dia 24 de junho, com as maiores precaugoes e com a • 
necessaria reserva, fez abortar urna sublevacao tramada pela 
tropa sob alhéa suggestao, conseguirído prender logo os 
motores conhecidos. 

Na mesma provincia Ihe foi confiada em o l.° de outúbro 
de 1854, em qualidade de engenheiro, a eommissáo de exa- 



17 



mes, nao so o estado da fortaleza— S. Gabriel— que Oca á 
margena septentrional do Rio Negro, mas tambe m o das 
igrejas que servem de parochias no dito rio. Alem destes 
encargos I he foi dado, com recommendacao, o de escolher 
local adaptado para construir-se nm quartel próximo da 
serraCucuhy, e delinear plañía de urna fortaleza provisoria 
que deiendesse o mesmo lugar. Pondo termo a esta im- 
portante commissao em 17 de Janeiro de 1855, deixou co- 
merado o quartel na ilha (Vonteira á referida serra, e apre- 
sentou as plantas recommendadas, descrevendo circums- 
tanciadaiaente os estudos, observares e traballios dessa 
commissao em um relatorio que existe annexo ao do mi- 
nisterio respectivo. 

Logo depois recolheo-se ao Pará, em 17 de marco, e 
veio exercer no 3.° batalhao de artilharia a pé o posto de 
major, á que fóra promovido por decreto de 2 de dezem- 
bro de 1851. 

Por decreto de i¿ de clezembró de, 1857 foi promovido 
ao posto de tenente-coronel graduado. 

Em3l de janeiro de 1858 foi examinar as obras da for- 
lificacao de Obidos como membro da commissao de enge- 
nheiros, para esse íim nomeada. 

Em marco de 1860 acompanhou o presidente da pro- 
vincia, consélheiro Sá e Albuquerque, que visitón algiíns 
lugares do interior da provincia. Coube-lhe examina!', como 
engenheiro. a fortaleza de Macapá, a de Obidos e-a de Gu- 
rupa, e bem assim as obras provinciaes. Depois de efí'e- 
ctuar com o dito consélheiro a sua excursáo scientiflca per- 
correndo as cidades de Gameta, Macapá, Santarem, e Obi- 



3 



18 



dos, e.as villas de Breves, Gurupa e Monte-Alegre, e a fre- 
guezia da Prainha, chegou a capital a 15 de Abril. 

Da villa de Monte-alegre escreveo o visitador em seo li- 
vro de lembrancas estas palavras: «Nunca um lugar tomara 
urna denominado mais adequada. O homem mais misán- 
tropo que ahi fór, e estender a vista pelos immensos cam- 
pos, lagos e cascatasque circumdao a villa, nao pederá con- 
té r a admiracáo, ficará absorto contemplando essas maravi- 
Ihosas obras do Creador.» 

Por decreto de 2 dedezembro de 1860 foi promovido, 
por merecimento, a tenante-corone! effectivo e commandan- 
te do 1.° batalháo de artilharia estacionado na corte. 

O coronel Carvalho, commandante do 3.° batalhao de ar- 
tilharia a pe, nao faitou ao dever e á cortezia de fazer, 
na órdem do dia de despedida, honroso elogio ao distin- 
cto offieia!, que deixava o lugar de riscal de seo batalháo, 
onde era respeitado e estimado por todos. 

Quando em commissáo na provincia do Amazonas, me- 
receo ahi os suí'fragios do cidadáos Amasonienses para de- 
putado á assembléa legislativa provincial no biennio de 1854 
á 1855. 

Em 1858 foi eleito deputado supplente á assembléa le- 
gislativa provincial do Para no biennio de 1858 a 1859. 

Em 1857, poique tinha completado vinte anuos de bous 
serviros, recebéo a mercé do habito ele S. Bento de Aviz 
que Ihe foi conferida por decreto de 27 de janeiro do dito 
anno, condecoracáo que reünio-se á do habito de Christo, 
concedida por decreto de 14 de Abril de 1855, pelos ser- 
vicos militares prestados na provincia do Amazonas. 

Desde que se instituio no coilegio de Santa Alaria de 



19 



Belem que, sem embargo de suas occupacóes militares, 
i j ello lecionou geographia e historia com aproveitamento de 
seos alumnos, e com crédito para o collegio. 

Seguindo para a corte, onde chegou a i i de fevereiro 
de 1861, tomou no din 14 conta do commnndo do bata- 
lhao para que foi designado. 

Submettido o batalháo á inspeegao de que foi encarrega- 
do o marechal Pimentel, este, era seo relatorio, fallando 
do distinoto general Gurjáo, entao tenente-coronel com- 
mandanle daquelle batalháo, assim se expressa: «O actual 
comrnandante do batalháo, a quera eonheoo da provincia do 
Para, é um official de bastante mcrecimento, multo intelli- 
gente e zelozo no cumprimento de seos deveres: é bom of- 
ficial de artilharia, assim como trabalha perfeitameute de 
iníantaria. Entende da esci ipturacáo de um carpo, e faz-se 
digno de louvor.» 

A de janeiro de 1803 naarchou com o seo batalháo 
para a fortaleza — Sania Cruz — por causa da questáo Christie. 
Como official de contianca foi-lhe encarregada a defesa des- 
ta fortaleza, que ao mesmo lempo passou a commamiar 
para., accumulando os dous cargos, poder colloca-la em 
completo pe de guerra, eommissáo na verdade minio ho- 
noriíica, porém bastante trabalhosa, do que deo satisfatoria 
conta, e d'ahi Ihe veio a condecoracao do habito da 
Rosa. 

Por aviso do ministerio da guerra de -J de fevereiro foi. 
d^ ordem de S. M, o imperador, elogiado por ler com os 
officiaes deseo batalháo contribuido com um dia de soldó 
para as despesas do armamento do exercito e fortiíicacoes, 
durante a crise em que se achava o paiz. 



20 



No dia 5 do dito mez defevereiro, visitando S. M. o Im- 
perador com o ministro da guerra a fortaleza, moslrou-se 
satisfeito pela mudanca que encontrara para melhor, e, de- 
pois de haver tudo examinado, fez a honra de aimocar rom 
o commandante Gurjao e os demais offieiaes cora quera, por 
espirito de camaradagem, confraternisagao e economía, elle 
havia arranchado. 

No día '20 de marco ura sinistro occorrido na fortaleza 
bastante molestouao previdente militar que a commandava. 

Logo pelas 6 horas da manha desse dia apresenlou-se 
S. M. o imperador com os seos semanarios na fortaleza. 
Estava determinado que tivesse lugar o exercicio de fogo 
com urnas pegas de calibro 32, que aliravao peía prímeira 
vez, recebidas do arsenal de guerra. 

Fez-se disto sciente a S. M. Imperial que Declaren Que- 
rer Assistir a esta experimentacao. 

Fazendo-se fogo com a primeira pega, mas nao se pu- 
dendo dirigir as pontanas para o— Pao di 1 assucar — rau- 
do u-se o exercicio para outra balería armada cora pegas an- 
tigás. Depois de feitos alguns tiros, retirou-se S. 1VÍ. o Im- 
perador. 

O commandante eo capitao Sevei iano continuarara a f a 
zer fogo com as pecas novas. O capitao estava trepado so- 
bre o reparo de urna das pecas, e o commandante, oito pas- 
sos á retaguarda da raesma peca que, disparada, arreben- 
tou era muifcos estilhacos, passand) a cufatra por sobre a 
cabeca do commandante que ficou por alguns minutos sera 
sentidos. Logo que tornou a si apresentou-se-íhe o triste 
espectáculo de dous soldados morios e outros tantos ferí- 
elos gravemente. 



21 

Ouiz a Providencia que S. M. o Imperador já se Houves- 
se retirado, evitando-se o risco que correría sua vida., e 
alé porque maior seria a catastrophe, achando-se mais 
gente agglomeráda junio do ponto em que se deo o suc- 
cesso. 

No dia 20 de Juriho de 1863 lodos os officiaes do seo 
batalhao offerecerao-lhc o seo retrato lithographado como 
orna prova significativa da estima e considerado em que o 
tinham; acto que, por sua exponlaneidade, assás o commo- 
veo e penhorou. 

Em í de julho, em presenta de um memoro da eom- 
missao de melhoramentos, novas experiencias se fizeráo, 
corn lodo o escrúpulo e cuítela, em mais quatro pecas no- 
vas de calibre 32, ignaes em marca áquella que havia ar- 
bentado no dia 20 de marco: houve o incidente de explo- 
sfíí) em duas. o que veio convencer plenamente de que o 
successo anteriormente occorrido nao foca originado por 
deleixo, mas sim por defeüo da íundicao em taes pecas. 

Visitando s. M. O Imperador a fortaleza no dial) do dito 
mez dejulho, pelas seis horas da manila, Fez, pela segunda 
vez. a subida honra de almófar com o commandante e seos 
officiaes. Depois do almoco assislio aó exercicio de granadas 
coin as pegas de 80 c com líalas rasas das quaes algumas 
ferirSn o alvo. S. M. o imperador Mostrou-se salisfeilo. 

Instituio-se no día 5 de setembro a sociedade — Instituto 
de Artilharia — e approvados os seos estatutos pelo governo 
imperial, ib i este distincto oííkial eleito presidente desta 
sociedade. 

No dia 26 de dezembro embarcou com o seo batalhao, 
composto de 580 pracas, para o Rio da Prata, á bordo do 



22 

vapor Cruzeiro do Sul, fazendo parte tía brigada expedi- 
cionaria á Montevideo. S. M. O 'Imperador Dignou-se as- 
sistir ao embarque. O povo patenteou grande enthusiasmo. 

Desembarcou era Fray Beatos, distrieto de Paysañdú, 
no Estado Oriental, era 26 de janeiro de 1865, assuraindo 
¡inmediatamente o commando da 2. a brigada de infantaria. 
Marehou era 30 cora o exercilo sobre a : cidade de Monte- 
video, acampando cora o mesmo junto a esta cidade, na 
villa da Uniao. 

Assistio á capitulado e rendieao da mesma cidade, que 
leve lugar a 18 de íevereiro. Marchando cora o exercito 
era 24, fui tomar arraial no cerco era frente á mencionada 
cidade. Reassum'mdo o commando do seo batalhao de 
artilharia), atravessou cora o exercito da república do Es- 
tado Oriental do Uruguay para a provincia de Entre-Ríos 
na Confederacao Argentina era 30 de junhb (1 86o). To- 
mando o coraraando da artilharia era 14 de agosto, pas- 
soú, era 29 de setembro, coiii o exercilo imperial da pro- 
vincia de í^ntre -Ríos para a de Corrientes. 

Por decreto de 18 de noverabro foi transferido para o 
estado-maior de artilharia. Marehou de Talá-Corá, e acam- 
po u, em 2o de novembro, na raargera esquerda do rio Pa- 
raná, era frente ás forliiicaco.es paraguayas, em í ta piró, 
contra as quaes dirigió os bombarderos feilos pela uossa 
artilharia até 31 de marco «de 1866. Promovido a coronel 
por merecimento, foi designado commaudante do !.° regi- 
mentó de artilharia á cavallo, por decreto de 22 de Janei- 
ro de 1866. Assi>tio ao borabardeio do día 2 de abril do 
diio anuo e ao ataque da illia da Redempcao. Atravessan- 
do o rio Paraná, passou da provincia de Corrientes para o 



23 

territorio da república do Paraguay em 18, e foi tomar po- 
sicao em frente ao ¡nimigo na c oseada de Ilapirú. em 22, 
na vanguarda do exercito e das linhas avanzadas para nesla 
posicao l'azer bombear, rom as baterías do 3.° balalhao de 
ariilharia, as forfiftcagoes do Passo da Patria, booibardeio 
que se nao effeicluou, por haver o inimigo abandonado suas 
posi^oes em 23. 

Tomou parte no combate de 2, no rincón do Passo da 
Patria, sendo, na parte dada pelo general coinmandante da 
divisan, elogiado pela bravura e pulo aceito com que diri- 
gió a artilharia chira o le o combate: no canboneio de 9; no 
combate de 20 no Uslero-Bellaco; no canboneio feito pelo 
3.° balalhao de artilharia, das linhas- avanzadas do exerci- 
to sobre o entrincheiiamenlo inimigo, em 22: e na batalha 
de 2í, ludo de maio de 18(3G. 

Seos serviros prestados nesla jornada tiveram menean 
honrosa nos encomios com que, em ordem do dia, o coin- 
mandante em chefe do exercito publicou o muito que con- 
tribuio para a immorredoura gloria alcancada, e os rele- 
vantes servigos que assim prestou ao paiz, ajudando du- 
rante a batalha, como comraandante da 17. a brigada ao da 
divisan, no desempenho que com denodo e sangue frió 
so o be dar á ardua missao de l'azer metralhar o inimigo que, 
em grandes macas, carregoti sobre a fíente do exercito. 

Foi transferido para o comiiíando do I o balalhao de ar- 
tilharia, por decreto de 20 de agosto, e íicou commandan- 
áo a brigada de arlilharia. 

Foi nomeado para commandar as forjas da guarnicao de 
Corrientes a 7 de oulubro de S866. 

Permaneceo no seo posto com o sangue frió que llie era 



babituai, durante o bombardeamento sustentado por seis 
horas pelo inimigo sobre o acampamento dos ex ere i tos al- 
ijados, a 14, assim como, dorante os que se seguiram, 
d'esse día até 30 de junho. Assistio ao bombardeamento 
fejto ao inimigo nos días 1, 2, 3, 4, 7, 8, 9, 10, 11, 21, 
30 e 31. Dirigió os dos dias 14 e 15. Assistio aos comba- 
les de 16 e 18 tudo de jtilho. No mez de agosto dirigió, 
no commando da brigada, os bornbardeios feitos pelo ejer- 
cito sobre o entrincheiramento inimigo nos dias 22. 23 e 
24 de setembro. 

Dispensado do commando das Torcas de Corrientes, por 
ordem do dia do commando em ebefe de todas as fórcas 
brazileiras, foi nomeado para a commissao de inqueritos 
das pagadorias. 

Conclnindo esta commissao, recolheo-se ao 2.° corpo do 
exercito, onde passou a servir, como o publicou a ordem 
dia do commando em ebefe do l.° corpo do exercito n.° 
12, de novembro de 1866. E, considerado abi em diligen- 
cia, passou a commandar a divisáo de infantaria. Assistio, 
com a calma e com a prudencia e que sabia manter ñas 
bala Ibas, ao bombardeamento f'eito pelo inimigo ao nosso 
acampamento nos dias 8 e 29 de janeiro de 1867. A 12 
tomou o commando da 5. a divisan de infantaria em Virtude 
da ordem do dia n. 33 de 21, tudo do dito mez de janei- 
ro. Ñau mostró u menos sangue frió nem menor alten- 
cao, em quantp duraran) os bornbardeios feitos pelo inimi 
go nos dias 3, 5, 6 e 7 de fevereiro, e os dos dias 6, 12, 
18, 24 e 29, lodos feitos pelo inimigo. 

Porlou-se como guerr'eiro, já distinctq pelo sangue frió 
o pelo acertó ñas providencias, nos bombardeamenlos fe i- 



25 



tos peto ¡nimigo sobre o nosso acampamento nos días 1, 
I, 19 e 20, e bom assim aos combates de artilliaria de 29 
e 30 de maio; assim como nos bombardeios, tambem fei- 
los pelo ¡nimigo, nos dias 2o e 28 de junho; no que du- 
ron desde o día -) até a madrugada de i de julho, por oo 
casiao do embarque do 2. 11 corpo do exercito, com o quál 
relirou-se das posicoes de Curuzú [)ara o Passo da Patria. 
Dirigió, como commandante da brigada, o boinbardeamen- 
to do (lia 20, por toda linha de artilharia da vanguarda, 
sobre o acampamento ¡nimigo. Desde i) de setembro foi- 
llie condado o commando das torcas do Chaco em opera- 
res combinadas com a esquadra. 

Fui promovido ao posto de brigadeiro por decreto de 
IS de janeiro de 1868. 

Temos mencionado os servidos do distinuto e valente 
general Gurjáo, á vista de parte da fe de officio passada 
pelo expediente di» I.° batalhao, de que foi o comman- 
dante, comprehendendo o periodo decorrido da sua par- 
tida da corte para Buenos-Ayres até )i de setembro de 
1867. Dahi por diante a historia necrológica de sua glorio- 
sa vida militar deve reseñtir-se da falta de enumerarao de 
muiloá servicos importantes, que prestou na campauha, e 
que, pela sua reeonhecida modestia, deixou de assignalar 
no seo livro de Icmbrancas, mas que devem constar da 
continuacao da sua fé de officio que tratamos de obter do 
quartel general na corle. 

Nomeado. como já dissemos, commandante das forjas 
em operaQOes no Chaco para auxiliar a esquadra, compos- 
tas dos batalhoes 10 de infantaria, 44 e 48 de volunta- 
rios, e de um contingente de fuzileiros navaes, comegou a 



26 



exercer este commando a 3 de setembro de 1867, e fixon 
o seo acampamento na margem do rio Paraguay entre Gu- 
ra paily e Hnmaytá. 

A 3 de dezembró com um corpo de cavallaria e 180 pra- 
cas foi réco'nhecer e explorar o terreno próximo ao Timbó; 
Apenas chegou até o Riacho de Sangue— distante do acam- , 
pamento quatro leguas, por eslarem os passos á nado, e 
faltarem canoas para o trajéelo. 

Em 17 de janeiro de 1868 deo-se a oceurrencia de os 
paraguayos, em numero superior a 60 soldados de caval- 
laria, atravessando o riacho de Ouro com o proposito de 
surprehender o piquete que fez a descoberta do campo até 
esse ponto, arremecarem-se sobre dous soldados que iam 
maís ayancados, um dos quaes íicon morto. Immediata- 
mente fez marchar no encalco delles urna forca, que nao 
os poude encontrar, por terem, aceleradamente, repassado 
o riacho. 

Este incidente confirmou a necessidade de augmentar-se 
a forca existente no Chaco, com nma brigada de infantaria. 
como medida preventiva. 

Sobrevindo a endiente e invadindo até as trincheiras, a # 
22 de fevereiro (1868) passon-se com a forca que comman- 
dava no Chaco para o Quiá, permanecendo al i únicamente 
a artilharia com 110 pracas de prei e .4 ofíiciaes: e d'ahi 
embarcando a 24 com toda a (orea, desembarcou no dia 
immediato, no Potreiro Pires, sendo determinado pelo ge- 
neral em chefe que esta forca fosse considerada urna divi- 
san -até a ulterior organisa^ao do 2.° corpo do exercito. 

Em 21 de marco tomou o com mando e direegao da for- 
ca que marchou com destino de desalojar o inimigo das * 



27 



Lríocheiras e fortificagáo de Sauce, sem que causasse a me- 
nor demora a resistencia apresentada pelo inimigo, que„ 
-obre ficar derrotado, leve inais de 20 mortos. 

E>ta posicao vantajosa, d'onde nos faziam rnuito t'ogo, 
apresentava dous fossos, sendo um delles formado de um 
rio artificial, por meio de encanamento de agoas, e assás 
profundo, transposto o qual, surgía unía serie de bocas de 
lobo revestidas, no fundo, de bayonetas. Seguia-se, depois 
de tudo isto, o fosso da fortaleza com urna ponte levad ica 
e grossas muralhas, sobre as quaes estavam, apenas, as- 
sestadas duas pecas de campanha. inimigo, em sua re- 
tirada, conduzio urna das pecas, abandonando a outra no 
caminho. Com este feito de armas Coi superada esta formi- 
davel forliíicacao, bem construida obra de defesa, em fren- 
te das nossas linbas negras. 

O inimigo revelou a importancia da posicíto conquistada 
pelo nosso general, resolvendo immediatamenté abandonar 
toda a liuha da fortilicacao.. que constituía o quadrilatero, 
inclusivamente a fortaleza de Curupaity, concentrando-se em 
Humaylá. 

general em chefe de todas as loicas brazileiras e inte- 
rino dos exercitos adiados, apreciando quanto cabia ao ge- 
neral Üurjao o bem suceedido d'este ataque de 2i, expres- 
sou, em ordem do dia de 31 de marco, os merecidos lou- 
vores pela maneira honrosa e distincta com que se liouve, 
e o recommendou ao governo imperial. 

Km 11) de agosto (1868) marehou com a i. tl e 5. a divi- 
soes a reunir-se ao 1.° corpo do exercito. 

Da villa do Pilar ao potreiro Porlenho, por caminbos iu- 
vios e cercados de lagoas. que só o arrojo do soldado bra- 



28 



zileiro sabe transpor sem o auxilio de pontes, e em mar- 
chas continuas desde 26 do dito mez de agosto, passou 
com sua divisao o Tebiquary, e foi acampar em S. Fer- 
nando no día 2 de setembro. Em marcha nos dias 12 e 13 
ehegou á Villa-Franca, e d'ahi sahindo a 14, foi alojar-se 
em u m grande massegal. 

Fez parte do reconheeimento fjue o l.°e o 3.° corpos 
do exercito cxecutaram sobre as fortiíicagoes immigas em 
Angostura, lomando-se n'essa occasiao um reducto depois 
de renhido combate, fortificagoes que eslao assenladas em 
um lugar orlado de malas e banhados, ere se i dos por urna 
represa de agoa, f'eita com o fim de tornar esta posigao 
mais difíicilmenle accessivel. 

A 22 de outubro seguio para o Chaco, onde se acliáva 
o 2.° corpo ao mando do general Argolo, boje Visconde de 
ltapariea, e ahí tomou o commando da 4. a divisao de in" 
fantaria, na vanguarda. Em 26 de outubro, tundo marcha- 
do com o 16.° batalhao de infamaría para abarraeal-o na 
foz do rio que íica ácima de Angustura, travou com urna 
torga paraguaya que ahi Ihe appareceo, um forte liroleio 
que nos deo a perda de sete homens, sendo dous morios 
e 5 feridos, e ao inimigo 18 mortos e prisioneiros. 

Desde que entrou de novo a servir no Chaco com o dis- 
tincto general Argolo, foi um dos (¡dadores que, na van- 
guarda, com a fórga do 2.° corpo aplanaram esse escabi o- 
so caminho, abrindo picadas, alargando estradas e cons- 
truindo seis grandes ponles, de modo a por ahi transitar a 
artilharia e carretas de bagagens e mais utencilios bellicos. 
Para o conseguir foi necessario estivar. em parle com to- 
ros de añores e palmeiras, e em oulros lugares aterrar, 



29 



sem comtudo evitar.-se a destruigao dos aterros occasiouada 
pelas enxurradas das copiosas chuvas. É iocalculavel o ira- 
balbo que, entáo, coube aos soldados do 2.° corpo alé che- 
gar-se a abrir a communicagáo pelo Chaco, impossivel, no 
pensar de López, entre a esquadra ancorada abaixo de An- 
gostura e a que se achava era frente de Villeta. A 8 de no- 
vernbro foi levada ao cabo esta operagao de improbo tra- 
balho. 

Seguio-se no dra 5 de dezembro a marcha e a passagem 
do 2.° corpo do exercito para o rio Paraguay, e effecluou- 
se o desembarque no porto de Santo Antonio, -operacao 
que t'oi executada felizmente e sem óbice algum, eneon- 
trando-se ali, apenas, urna pequeña fórca que dispersou-se; 
porque o inimigo, (jue esperava se désse o desembar- 
que em Villeta, nao leve lempo de marchar para ali im- 
pedido. 

Pela manliá do dia 6 operou-se amarchapor urna estrada 
bordada de mata em seos flancos, encontrando-se urna tenaz 
resistencia da parte do inimigo na ponte Itororó defendida 
por mais de seis mil homens de infaritaria, cavallaria e de 
arlilharia que guarnecían) 1() pegas, resistencia que era fa- 
vorecida por todas as vantagens que esta posicáo offerecia 
ao inimigo. 

Travou-se o cruento combate em que o valente c intre- 
[)ido general Gurjáo ubrou prodigi«>s ile valor, sendo gra- 
vemente feridu no brago esquerdo, feri mentó de que aos 
17 de janeiro deste anuo em Hamaitá Ihe resultou fatal, 
porém gloriosa morte, que enlutou sua familia, seos ami- 
gos, e a lodos os Paraenses que esperavam abraga-lo e 
fazer-lhe as merecidas ovacoes, porque se vangloriavam 



30 

de ter um comprovinciano de tanto mérito, que de sol- 
dado se elevara ao honroso posto de general, assinalan- 
do-se como o primei.ro Paraense que liavia attingido este 
alto posto. 

Neste combate ern que, o inimigo, emboscado na mata, 
í'azia tao nutrido quanto certeiro fogo contra os nossos solda- 
dos tres vezes foi tomaiJa a ponte e tres vezes os nossos 
rechagados. O momento era de suprema angustia para to- 
dos. Valentes cbefes ao lado de seos valentes soldados 
alastravam o soalbo da ponte, que se tornava o arbitro da 
sorte de todo o exercito. 

Ahi mesmo pelejava o valente coronel Machado. 

Os nossos soldados ante tao ingente obstáculo esmore- 
cendo hesitavam em avangar: o espectáculo era horrivel 
para que elles se decidissem a recomegar urna hita láo san- 
grenta, difficil e fatal, vendo que o inimigo tinha por si to- 
das as vantagens. 

O desanimo já se havia apoderado dos nossos. 

üutao o nobre e distincto general Gurjao, desembainhan- 
do a sua espada de general, galgón a ponte a cavallo, bra- 
dando aos soldados: «Vejam como morro um general bra- 
zileiro! » 

Reapparece o enthusiasmo; seo estado-maior o acom- 
panha; os soldados o seguem, e a ponte cabe em nosso po- 
der! Mas o distincto general recebe um ferimento no braco 
esquerdo e urna forte contusao na espadua. Os ofíiciaes de 
seo estado-maior ficam quasi todos fétidos e um é morto í 

Na sua vida intima e particular dislinguia-se pela amisa- 
de que consagrava á sua familia, a seos irmaos, e a seos 
íilbos. de cuja edticacao carava com o maior disvelo, com- 



31 

plelando a de seo filho mais velho Joan Maximiano Antunes 
Gurjáo que, correspondendo aos desejos ríe seo eslimavel 
pae, chegou a conquistar o grao de bacharel formado em 
seiencias physicas e mathematicas. 

Auxiliou sempre a seo irmao mais velho na sustentaban 
de sua numerosa familia, tomando sobre si igual encar- 
go; e, desde que partió de seo paiz natal, nunca deixoude 
contribuir com seo soldó e com outros contingentes pecu- 
niarios para que nada faltasse aos seos. 

Dizia fia campanha, escrevendo a seo irmao, chefe da 
familia, Francisco Pedro Gurjáo. «Sinto ínexplicavel pra- 
zer sempre que, mesmo daqui lao longe, tenho occasiáo de 
contribuir para auxiliar-te, pois comprehcndo os sacrificios 
que fazes para desempenhar a nobre missao de velar e 
cuidar no bem estarde nossa familia.» 

Partilhou com seo dito irmao, depois da morte de seos 
paes, do iouvavel e nobre encargo da educacao de seos ir- 
máos mais mocos, que baviáo ficado em meíior idade, e 
cuja intelligencia carecía de cultivo. 

Tratava sempre com affabilidade os seos subordinados, 
sabendo alliar o valor, a disciplina e a austeridade das leis 
militares, com a amenidade do trato e com a benevolencia 
e humanidade, que nosé propria; e adquerio por esse meio, 
a sympathia de lodos quantos tinliam a fortuna de com elle 
praticar. Soeeorria aos que procuravam a sua proteccao, era 
franco e liberal, estendendo máo beneíicente, e observan- 
do uestes actos meritorios os principios do Evangelho. 
Ahi estáo muitos que podem attestar a verdade do que 
enunciamos. 

Honrado e probo, vivía de seos vencimenios, velando em 



32 



favor do soldado, cujo bem estar promovía, sempro so- 
licito em que ihes nao faltasse aquillo a que tinham di- 
re i to. 

Methodico e regalar em sua vida, ahi deixou o livro de 
coritas correntes de sua receita e despeza escripturado até 
dezembro de 1888, em que recebeo o honroso ferimento 
que lhe deo a morte. 

Serve elle de testemunho e de prava inconcussa de sua 
honradez. 

Desempenhou com louvor muitas commissoes de confi- 
anza, como foi últimamente a do inquerito e liquidado das 
pagadorias. 

De suas economías deixou apenas urna insignificante 
quantia, porque, vivendo strictamente dos seos vencimen- 
tos, empregava a maior parte dos mesmos na educado de 
seos filhos, e repartía igualmente com sua familia, semainda 
lhe faltar para actos de verdadeíra caridade; mas nada ficou 
de vendo. 

E assim este militar distin^cto e honrado nao legou a sua 
familia e á seos filhos, que nao possuem bens da fortuna, 
mais do que o seo nome coberlo de gloria, que occupará 
urna brilhante pagina na historia da guerra do Paraguay, na 
historia patria. 

Era religioso, e levado da fé exprímio-se nos seguintes 
termos, escrevendo particularmente a seo irmao chefe da 
familia, a quem elle muito presava, quando preocupado das 
diffkuldades e riscos detáo rude campanha. «Nao sei quan- 
do Déos permittirá que eu vá orar ante a imagem da mi- 
lagrosa virgem de Nazareth, na sua ermida em nossa tér- 
ra, por me ter sempre protegido, no meio de tantos peri- 



33 

u r os. e me ter concedido vida e saude. Tenho multa fe. e 
nao sei como se possa viver sera erética nella fondada.» 

«Quanlas vezés encaro o horisonte (pie me cérea earre- 
gado de nuvens caliginosas, e entao, penelraclo de desani- 
mo quasi que foge de mim toda a esperanca de volver para 
a companhia dos qoe me sao caros, mas recorrendo ás ora- 
eHes. que na infancia me ensinou nossa presada mai, de 
saudosa memoria, invoco a milgrosa virgen}, e de prom- 
pto se desvanécelo as nuvens; o horisonte se esclarece e 
urna esl relia brilha no céo. Mmha fe mais se robustece e 
faz que veja próximo o dia de abracar a lodos vos. Al i ! 
quantu é boa e ediGcante a reiigiáo do Crucificado quepro- 
fessamos !» 

Em verdade a religiao Fortalece a alma ñas maiores tribu- 
lacoes da vida. Menos teme a morte ijuem está tranquillo 
sobre as suas consequencias. Urna consciencia imperturba- 
da encara o perigo á sangue frió, e o a (ironía corajosa- 
mente ao reclamo do dever. 

Nadaé mais imponente e mais digno de respeito no mun- 
do do que a verdadeira pratica das virtudes. 

O distincto general possuia, alera da< virtudes enjos ac- 
tos íicao enunciados, a modestia e resignacáo levadas até o 
ponto de abnegnaeao. 

Depois de ferido, escrevia aseo irmáo em 12 de dezem- 
bi'o de 1868. referiodo simples e modestamente o acto de 
bravura que tanto o destinguio, e Iranquillisando sua fami- 
lia, apezar de intimamente, talvez, eonlieeer a gravidade do 
ferimento. 

«Eu, (assim se expressa) qnasi no fim do combate, já 
quando o inimigo fugia em completa derrota., fui ferido no 



34 



hrago esquerdo, e recebi depois urna forte contusao na es- 
pádu'a.» 

«Tenho fé em Déos que poderei ficar restabelecido den- 
tro de uní mez, ou tal vez em menos tetnpo, se a bala, que 
se nao tem encontrado, pronunciarse por meio da supura- 
cao para ser logo extrahida. Nao tenham cuidado porque, 
gracas cá Déos, nao ha perigo.» 

Em 26 do dito mez de dezembro, em carta escripia de 
bordo do encouracado BraztL iá quando elle estava sof- 
frendo bastante, sendo que por isso o general em chefe 
tinha ordenado seguisse para a corte, aíim de ali tratar- 
se, nem entao aínda usa de palavras desanimadoras, e assim 
se exprime: «Eu, gracas á Déos, voii indo um pouco melhor 
do ferimento: o braco inílammou-se de urna maneira assusta- 
dora, mas felizmente acha-se quasi no seo estado natural, 
tendo-se extrahido duas esquil ólas osseas. Ainda se nao tem 
encontrado a encantada bala, mas isso pouco importa. Por 
ora quasi nao tenho movimento algum no braco: porém te- 
nho fé em Déos que me aju ciará.» 

Sempre a tranquillidade de seo espirito: seinpre a sua re- 
signado ! ! 

Seos ardentes votos — de volver ao seio de sua familia— 
aprouve ao Omnipotente nao fossem salifeitos, e antes o 
chamou a si para recebe r a recompensa de suas virtudes. 
Urna térra ingrata e inhóspita recebeo seos últimos suspi- 
ros . 

Ainda que cercado de seos amigos, companheiros de ar- 
mas e de trabalhos, nao Ihe fui permittido o morrer entre 
seos irraaos, o entre seos filhos que elle tanto idola- 
tra va. 



35 



Que brilhante futuro o agnardava ! 

Km breve volvería á patria -e ao lar domestico eoberto de 
louros; mas. . . . a Parca cortou-lbe o íio da existencia, no 
momento era que a patria e a familia destinavao para o hé- 
roe festas triumphaes, no momento em que ia reeeber a 
recompensa de seos assignalados serviros, lendo-lhe já sido 
conferida a dignataria do Cruzeiro, do que nao leve conhe- 
eimento por jazer na eterna noile de seo túmulo ! 

Quanto Ibe nao é a elle honroso, e-a mim nao enehc de no- 
bie orgülho o elogio que [he tece o Exm. Sr. Márquez, hoje 
Duque de Caxias, em sua memoiavel ordem do dia, de 
14 de janeiro ultimo ! «Nao posso, neni devo (diz elle) 
deixar de fazer expressa menyao dos Exms. Srs. brigadeiro 
Jacintho Machado Bittencourt, íoao Manoel Menna Bárrelo, 
Hilario Maxiraiano Antunes GurjSo, e Joáo de Souza da 

Fonseca Costa o 3.°já vantajosamente conhecido 

e reputado no exercito, por seo amor á disciplina, intelli- 
gencia superior, bravura e intrepidez de que tantas e táo 
brilbantes provas deo ñas difficeis c arriscadas commissoes 
do Chaco, sellou a distinc.Qáo de seo nome pela intrepidez 
e calma, cora que se portou no combate do dia G de de- 
zembro próximo passado, e pelo honroso ferimento que nel- 
le recebeo.» 

Táo cedo nao possuirá a provincia do Para, sua patria, 
outro vulto que tanto tenha ennobl ecido a térra de seo ñas- 
cimento, um cidadao tao benemérito e conspicuo. 

Tem o Para sido berco de varoes eminentes em toda as 
sciencias e ciasses da sociedade, mas na dura proíissao das 
armas era este varao, que de soldado se elevara, por seo 
merecimeuto, alé á altura de general, o primeiro general 



36 



paraense que tanto honrou a sua patria e a seo paiz, e 
que, depois ele conquistar tantas glorias, deseco ao sepul- 
cro, nao tendo aínda completado 49 anuos de idade, forte 
e vigoroso. 

É triste fatalidade ! 

Como sao ephemeras as glorias deste mundo ! 

É porém forcoso curvarmos a fronte e resignarmo-nos 
aos ineomprehensiveis decretos do Altissimo. 

Dóminos tecum, viwrfum fortissime. . . . Vade in liac 
fortitudine lúa. Ego ero tecum. 

S. cap. 6.° v. 1% 14 e 10. 



A camara municipal desta cidade fez publico, [>or edilal 
de 6 de abril de 1869, ter résolvido substituir a denomina- 
gao da rúa do Arsenal pela de — rúa do general Gurjao — em 
memoria deste bravo paraense, nascido na antiga morada 
de seos anlepassados naquella rúa. E por edilal da mes- 
ma data conviden seos municipes a eoncorrerem, com seo 
contingente, para a acquisicao do busto do ¡Ilustre ge- 
neral, que de ve ser collocado na salla das sessoes da mes- 
ma cámara, julgamlo que, só por este acto significativo do 
senlimento profundo de que se acha possuido, nao só o mu- 
nicipio, como lodo o paiz, pelo passameulo dü bravo general 
Gurjao em Humaitá. depois de haver prestado relevantes 
serviros e combalido gloriosamente em desaífronta da honra 
nacional, ficaria satisfeilo o dever de- honra conlrahido com 
esse bravo das phalanges brazileiras. 



4 



O GENERAL GHRJÁO. 



OFFERECIDO AO MEO AVIGO 

JOAO M A- GUKJÁO- 
I 

Km fevereiro du anno passado reeebia a nobre provincia 
do Para urna faustosa milicia. Um dos seos íiliios maisno: 
lavéis, militar de nomeada, (ora distinguido pelo governo 
imperial com a promogáo ao posto de brigadeiro,, a que fi- 
zerajus por seos relevantes servidos na guerra contra o des- 
pota do Paraguay: 

Ninguem mais digno do que Gurjáo de fazer paite do 
nosso estado maior general. Os perigos do campo de bata- 
llia o eneonlravam calmo e risonhó como era nos mais actos 
da vida. 

Sem ostentar de continuo a sua bravura com prodigo lu- 



38 



xo, — ñas occasioes mais difíiceis elle tornava-se tim exem- 
plo de gentilezas á soldadesca varillante. Official de artüha- 
ria bem conhecido pela sua intelligencia e estudos. bavia de 
honrar a elevada classe a que ia pertencer. 

Além disto, modesto e simples, lhano e affavel no tracto 
particular, religioso cumplidor de seos deveres na vida pu- 
blica, conseguía (o que mu i-tos admiravam) de seos subor- 
dinados servico exacto e de boa vontade feito, sem que a 
tal desiderátum sacrificasse abundancias de ameagadora ener- 
gía ou de cruel severidade. 

Mas, promovido em janeiro de 1868, eslava escripto que 
Gurjao nao cingiria um armo a banda de general. 

Os bordados d'aquella farda que d'essa vez symbolisavam 
o merecimento real de urna existencia tao dedicada á patria; 
linham de em breve deslustrarse ao pó das campas! 

II 

Chegára o día 6 de dezembro; o exercito imperial, depois 
de ter feito urna marcha quasi impossivel pelo Chaco ala- 
gado, transpozera de novo o rio Paraguay, desembarcara 
em Santo Antonio e avancava sobre a ponte do Itororó; um 
corpo de exercito ao mando do legendario Osorio seguirá a 
flanquear e cortar a rectaguarda do inimigo: antes de ter- 
minado esse movimento tao bem concebido e que só por si 
nos daria a posse da ponte em quesláo, o ¡Ilustre Argolo 
leve oi'dem de atacar. 

Vao morrer os esforcos dos nossos soldados no desíila- 
deiro. varrido da metralha. Fernando Machado, dislincto pe- 
lo denodo e coragem. distincto pelos doles da intelligen- 



.39 



cía, distincto pela confianca que merecía dos generaes e do 
exercito, cae expirante, ferido gloriosamente. Cabe a Gur- 
jao a vez de ir áo assalto rom a sua divisao; mas, o perígo 
era lio grande que seos soldados — os bravos soldados bra- 
zileiros — comecam a recuar. Gurjao indigna se anle essa 
manifesiacao de flaqueza: mas. nao é a apostrophe brutal 
que Ihe vem aos labios, nem a punicao terrivel quesuamao 
agita: elle quer aínda ser o exémplo para seos soldados: 
elle quer aínda urna vez conduzii-os pela cmulaeao e pela 
victoria do sentimento patrio, rujo imperio desmaiára por 
instantes n'aquelia oscillacao de espiritos lao guerreiros: 
Gurjao, de espada em punho, arroja-se para a. frente, bra- 
dando: «vejam como morre um general !» A sua divisao in- 
leira o seguio: como nao? 

Na ponte a lucía foi tremenda: imaginae as ondas de dois 
occeanos, qual mais tempestuoso, se entrechocando n'um 
embate burrivel. para a conquista de mais espaco, e tereis 
um qoadro semelhanle ao desse encontró de brasileiros e 
paraguayos: n'um dos pontos mais arriscados, ahí estava 
Gurjao c as balas ainda o respe i ta va m. 

Eduardo da Fonseca, csse heróe a quem urna morte glo- 
riosa cortaría momentos depois a existencia, tao assignala- 
da n'estes quatro anuos de guerra pela nobreza de cará- 
cter, tanto quanto pela indómita bravura, pelos brilhantes 
servicos tanto quanto pela injustica dos governos, Eduardo 
da Fonseca chegou-se duas vezes a Gurjao e amigo Ihe di- 
rigió estas palavra's: «general nao é aqui seo lugar.» A lu- 
cia continuou e depois. . . a fronte querida de Eduardo ro- 
lava no pó e Gurjao era forcado a retirar se, ferido no bra- 
co esquerdo ! 



40 



De seo estado maior só um official fieára incólume. 

Nery, esse menino tao valente, cahira morto ao lado de 
seo protector o amigo; Vasconcellos, o joven e distincto vo- 
luntario cearense, tinha sido fe r ido; Gama Benles e Gama 
Costa (Rodrigo), patricios do general e por elle estimados 
como filhos, linham sido seriamente contusos. 

Os paraguayos tinham distinguido bem esse grupo de 
mocos denodados ! 

Gurjao, extremoso e sensivel, nao sentía só o sofírimen- 
to do braco: accumulou aquellas dores todas no coracao. 

III 

Transportado para bordo do encouragado Brazil com o 
bravo general Argolo, seo eompanheiro na lucta e na infe- 
licidade do ferimento, Gurjao ahí deo provas da maior re- 
signagáo: só man ¡fes ta va o desejo de conservar o braco of- 
fendido da bala. Os peritos estavam divididos a semelhan- 
te respeito. A maioria opinava pela amputacáo; dois ou tres 
nao a julgavam necessaria, satisfazendo assim ao general, 
quem teria razao ? 

O tempo foi assim se passando: o general, tomado de um 
fastio quasi invencivel, eníraquecia-se a olhos vistos; eáemas 
Ihe appareciam ñas pernas: eram vestigios — que se aviva- 
vam — d aquella estada tao perniciosa no Chaco inundado e 
insalubre. 

Nos principios de Janeiro Gurjao deseco a bordo do mes- 
mo encouragado Brazil para Humaitá: á 3 desembarcava 
elle na praca, indo bospedar-se em casa do seo amigo o Sr. 



tenento-coronel Pedro Nolasco, comñiandante do 3.° bata- 
lhao de artilharia a pé: aínda poude percorrer a pé toda a 
distancia entre a barranca do rio e aquella casa. 

Novamente examinado por médicos inteiligénles, Gurjáo 
teve o prazer de ouvir garantido o seo curativo sem o sa- 
crificio do brago ferido. Ab ! Ksse prazer devia durar bem 
pouco lempo ! 

Depois... ¡amos vel-o todas as tardes ao cahir do sol 
avermelbado d'esses dias de calma. Ao principio o encon- 
travamos sentado á porta (Fum caramanchel; depois deitado 
iVutna rede á sombra d'elle. O fastio Ibe era renitente, sua 
debilidade augmenlava, seo estado peiorava de hora em 
hora. Senlír-se no meio dos seos, respirar os ares puros 
da patria, ba mais de quatro anuos deixada com saudade 
para vingar-lbe as affrontas sobre urna facgáo de furiosos e 
um despota maldito, tornar a ver a térra natal — mais en- 
cantadora e querida agora apoz os sonbos de urna tao lon- 
ga ausencia, fóra a reanimará o d'esse corpo abatido, nova 
vida para essa alma generosa, que já tao glandes sacrifi- 
cios Pizera á causa nacional em plaga inimiga. Era essa a 
nossa crenga e. . . tambem a d'elle ! 

Mas o vapor que o devia transportar ás ridenles praias 
do Guanabara demorou-se em extremo, e o mal fazia serios 
progiessos cada dia: doia-nos o coracao ao reconbecel-o — 
quando visitamos o general, nosso velbo amigo... Ainda 
na tarde do dia fatal elle, com o mesmo son iso com que sem- 
pre nos recebia, nos disse que julgar-se-bia salvo logo que 
embarcasse. 

A casa em que se tralava era situada ao flanco direito do 
acampamento do 3.° batalhao de artilbaria, batalbao forma- 

6 



4'2 



do no Para, balalbáo d'esses soldados de tez morena, de 
braco forte e de alma intrépida. 

Que coincidencia! Ahi, ao pé de seos patricios que tanto 
lhe recordavam as aprasiveis margens do Amazonas sober- 
bo e a térra farinosa em que nascéra, linha Gurjáo de mor- 
rer victima de seo amor e dedicacáo á patria ! . 

Hilario Maxiuiiano Antunes Gurjáo. emüm deixou de pa- 
decer; ás 40 horas da noite de 17 de janeiro corrente es- 
pirava elle tranquillo como um justo, no meio de amigos 
fiéis: para elle comecava — :io ceo a eternidade doseleilos 
de Deus: na ierra a posteridade dos grandes homens do 
Brazil ! 

IV 

No dia seguinle teve lugar o enterro, á 1 hora da tarde: 
nao tí ve forcas para acompanliar á ultima morada o eorpo 
inanimado d'aquelie bom amigo, ^jinha fronte descaliio ao 
peso d'uDia dór profunda e de trislissimas recordacoes. Cho- 
rei á vista do apparato d'aquelle salimiento lúgubre. Eulem- 
brava essas relacoes táo intimas que a vida da campanha 
mais tinba estrellado e que um golpe da sorlé rompía no 
tracto mundano, sem poder apagar-nfas no coracáo. 

Aquelle cadáver que levavam para longe demim era o de 
um autigo companheiro de armas de meo infeliz pae, am- 
bos Línhain servido no mesino batalhao ñamáis perfeita ami- 
zade e harmonía; agora aquelle que mais se relardára ñas 
scenas desta guerra para inaior realce das glorias patrias, 
ia se reunir na sepultura ao nutro, táo cedo arrebatado á 
causa nacional e ao amor de seos filhos. Eu imaginava a 



i 3 



que martyrios (icaria submettido uno amigo fiel, Joao M. A. 
Gurjáo, ao receber— como o ealix ik amargura— a tremen- 
da noticia da raorte de seo querido pae ! 

Na vida serapre a cruz erguida nos acompanha: vemol-a 
melhor em transes como esse; abraeamol-a enláo, regamol-a 
cora as nossas lagrimas, buscando, ás vezes era vio, por 
muito lempo que d ella nos venha consoló e resignacao ! 

V 

Aqui neste viver affanoso de campaoha, no meio das pri- 
vares e soffrimentos, o sentimento toma extrema energía, 
vé melhor e nao se ¡Ilude. Um velho amigo se nos aíigura 
um pae, os bons e leaes companheiros parecem ser nossos 
irmaos. A amisade torna-se coofraternidade: a pedra se 
transforma em rochedo. 

Ah! lautas cousas aqui me despertara agora sentidas re- 
cordacoes do passado ! 

Se da barranca do rio volvo os olhos para a margeno fron- 
teira, do Chaco, lembro esse Indio acampamento do porto 
Etisiario. onde Gurjáo déra tantas provas de bom eomraan- 
dante e de um espirito cordato, angariando as sympatbias 
de toda a esquadra ahí ancorada. 

Se da trincheira paraguaya dirijo minhas vistas para as 
nossas posicoes de Cúrapaíty, minha imaginacao reedifica 
além d'aquelle arvoredo as nossas modestas casas de palha; 
parece-me assislir aínda a unía de nossas reunioes quoti- 
dianas em que o general eslava no meio de nos como um 
pae rodeado de filhos; membros de diversas familias, ahi, 
longe da patria, corapunhamos urna outra familia nao me- 
nos sagrada pelo sentimento e pela verdade. 



44 



Cá mesmo em Humaytá, aquella casa que enfrenta ao ce- 
miterio causa-nos tristeza, quando por ella passarnos. Ahí 
esti vemos todos pela ultima vez juntos, alguns dias que de- 
pressa correram entre sorrisos e no poético deleixo do mi- 
litar, que nem sabe onde terá o amanha. * 

D'ahi vimos partir o velho amigo forte e esperanzoso: de- 
correram quatro mezes apenas. . . e o abracamus de novo, 
coberto de gloria, mas ferido de roorte ! 

VI 

Basta ! 

Nao pretendemos fazer urna eloquente necrología, nem a 
este nosso curto escripto presidio o intento de urna bio- 
graphia. Se forras nos sobrassem, lalvez tomassemos tao 
arduo empenho. E bello commettimenlo fóra esse. 

Que liecoes nao eneerra a vida do benemérito Gurjao, que 
de obscuro soldado se elevou por seos serviros e dislmccao 
á altura de general, aínda no vigor da idade, ainda podendo 
representar urna esperanca do futuro ! A religiao do dever. 
a bondade d'alma, o amor cá patria, a cultura da inteliigencia, 
eis o segredo da prosperidade d essa existencia, do respeito 
que a acompanbou de sua lerminacáo tao santa e tao cho- 
rada. 

Mas. . . basta! Para desafogar nossa dór hemos dito de 
mais. 

Tempo cruel da guerra! Gom as nova;; que cnthu>ias- 
mam o povo e satisfazem o orgulho da nacao inteira vae 
sempre de envolia a fúnebre lista da perdade tantos bravos ! 



§5 

Talvez. a esta hora, a heroica provincia rio Pará receba no 
meio do seo regosijo o golpe que a ha de enluctar e fazer 
lamentar que líio caro custasse urna victoria. Ella pranteará 
a morte do seo ¡Ilustre filho como o Ceará pranteou a de 
Sampaiu: ha de consola la o monumento perduravel que na 
gratidáo dos brazileiros será levantado á memoria de Gurjao. 

Humavtá, 24 de ¡aneiro de 1860. 

D. 



Do Diario do Gram-Pará.) 



O GENERAL GDRJÁO. 



A noticia do fallecimento deste benemérito paraense, táo 
dislincto ñas armas como ñas lellras, nao podía deixar de 
contristar toda populacao desta cidade. Valente e ineansa- 
vel na defesa e gloria da patria, seo nome, suas glorias 
pertencem a todo o Brazil. que lamenta a perda de urna 
vida lao preciosa. 

O general Gurjáo nao linha aínda completado 49 annos 
de idade. Deixairmaose Sinos, e entre estes ama menina. 
É de crer que o govérno imperial nao deixe em abandono 
aquelles dos quaes era arrimo. 

«Olhem como morre um general brazileiro», disse elle 
quamlo animava os seos soldados a derrotar o inimigo; sao 
na vei dade palavras que jamáis deixarao de ter lugar honro- 
so ñas paginas douradas da nossa historia. O ferimento que 



48 



enlao recebeo. parecendo leve, o levou ao túmulo na noite 
de 17 de janeiro. 

Seos restos mortaes descansara em Humaitá. d onde raais 
tarde serao trasladados para a patria. 

Era sobrinlio do contador da thesouraria desla provincia 
Antonio Agostinlwde Andrade Figueira.e irmaodo chefe de 
seccáo Francisco Pedro Gurjáo, a quem o fallecido general 
e de niais irmáos respeitavao e amaváo nao como irmaoj 
mas como nm pae. 

Deus dé á alma do ti i u st re general lugar dislincto entre 
os seos justos. 



(Do Paiz.) 



DISCURSO 



POR OCCASIAO DA MISSA .MANDADA CELEBRAR PELO PARTIDO LIBERAL EM 
SUFFRAGIO DA ALMA DO DISTINCTO PARAENSE, O BRAVO MILITAR. 

GENERAJ, GUKJAO, 

PBOFRRIO O NOSSO AMIGO DR. SAMUEL WALL AGE MAC DOW EL L UM IMPOR- 
TANTE DISCURSO, QUE NOS FEZ O FAVOR DE CONFIAR. E QUE EM 
SEGUIDA PUBLICAMOS. 

Fugii vehit wmbra. . . . 

Desappareceo repentinamente como a 
sombra. . . . 

Kis semiento o que nos resta d'aquelle que existió ou- 
trora. . . .- Alii está a decifracao de suas palanas memora- 
vlís: «Yede como mor re um general. ...» 



Para viajar! era a inscripgao que amigamente lia-se nos 
eenolaphios romanos, levantando-se sombríos á margena 
dos caminhos públicos, como par a indicar aos fraseantes o 
marco verdadadeiro e infallivel de suas fadigas. 

O túmulo é a única realidade desta vida de emprestimo, 
onde tudo o mais é epliemero e passageiro como a luz fu 
gitiva de um meteoro. Caminhamos todos os días para a 



50 



morte sem retrogradar um so passo, á semelhanca das 
aguas que corren» incessantemente para o mar, sem voltar 
nunca. (2 reg. c. 14. v. 14.) 

A vida humana é lam curta e tam incerta que nao pode 
ninguem contar seguro com o instante que tem de succe- 
der a outró instante . da existencia; vem prestes a morte 
desvanecer todos os risos e prazeres, para substituil-os 
tristemente pelo luto e pela dor. . . . 

Eis ludo o que é o homem ! 

— Pobre peregrino que atravessa os desertos áridos (leste 
mundo com a caravana de seos contemporáneos. A historia 
humana resume-se toda nesse simples enunciado, alem do 
qual apenas existe o orgulho e a opulencia va que se rjis- 
persam ao sópro do vendaval da sorte, como a escuma li- 
geira das vagas do océano. 

O testemunho do nada da existencia está exactamente na 
realidade do sepulch.ro. As pompas funerarias, esses appa- 
ratos lúgubres de que ora estamos acercados, os sons com- 
passados e tristonhos do campanario, os semblantes me- 
rencorios e abatidos de todos os circumstantes, as lagrimas, 
até as proprias lagrimas. . . . tudo em summa significa só 
e únicamente o nada desse involucro precario que tem fa- 
talmente de reduzir-se á sua origem primitiva: utilissima 
instruccao que quotidianamente nos ministra a lei fatídica do 
passamento. 

A morte tam somente ó que se nos anlolha como urna 
necessidade irremissivel. Todos tem de cumprir essa sen- 
tenca tam tremenda e infallivel, quanto exacia e inevitavel. 

Ahi tendes, senhores, diante de vossos olhos um docu- 
mento inconcusso do que acabo dé dizer vos. . . . 



M 



O general Hilar io Maximiano Antunes Gurjao, cheio de 
vida e de coragern, no ardor dos cómbales, onde seo braco 
vigoroso, derribando o fanatismo louco de um povo bárba- 
ro e obscuro, lazia triumphar a eauzada justica e da civili- 
sacáo, senté rocar-lhe pelo corpo a foice improba da mor- 
te, que urna vez ainda respeita o bravo vencedor, recuan- 
do deslumbrada pelo brilho de siia victoria. Mas ah! bem 
poneos dias sao passados, que vem, logo apoz, cumprir a 
sua funesta commissáoa pallidaeompanbeirade Lachesis. . . . 
O li vio do destino fecha-se sobre o sepulchro de mais um 
machi : e a forra, a coragern, a saude, esse mesmo fogo 
inextingu.ivel e sagrado do patriotismo e do amor da liber- 
dade desparecen! para sempre, com a rapidez da sombra 
fugitiva ! — Fugü velut umbra. . . . 



Nao venho atjui ministrar aos críticos objecto para suas 
analyses sarcastieas; os floroes da eloquencia, os tropos o 
todos os adornos que podem tornar a elocugao sublime e 
o estylo api imorado, sao extranhos ao meo proposito: ve- 
crtio porem, somente para t ender um tributo de bomenagem 
á memoria veneranda de um cidadáo illustre, cujo nome já 
pertence á historia patria, inclinando-me reverente diante 
do catafalco que symbolisa o seu sepulchro. 

Nao é um discurso, ou necrologio que venho recitar; sao 
apenas duas palavras saturadas de pezar que cahem-me dos 
labios, orvalbadas pelo pranlo sincei o de urna saudade pro- 
fundamente dolorosa. 

Já ti ve occasiáo de dizel-o e repilo ainda urna vez: nem 



52 



todos os amigos do ¡ilustre tinado i^m tanto direito, como 
eu tenho para evocar-lhe os manes das regioes i riso mi a veis 
d'além túmulo; paia curvar-se á be i ra de seo jazigo, dei- 
xando rolar sobre a lapida sepukhral urna lagrima ainda te- 
pida. 

Foi elle outr*oi a meo commandante, quando o destino, 
torcendo-me a yocagao por forea da necessidade, transfor- 
mara-me em soldado d'artilharia: quero, pois, rectber as 

suas ultimas ordens para cumpril-as rom íidelidade, porque 
acoslumei-me aquella suave obediencia que elle sabia ins- 
pirar a seos subalternos, pela brandura.e pelo amor. Per- 
rnitli-me, senbores, que satisfará este desejo piedoso, para 
consolacao de meo espirito sinceramente penalisado. 

Disse-vos ha pouco, que esta pompa e magnificencia lú- 
gubres alteslavam o nada da existencia humana e que sob o 
frió lenco I da húmida térra se havia depositado para sempre 
mais um martyr da civilisadora cruzada do Bi azi 1 contra o ' 
Paraguay; mas entao eu encara va o quadro que senos anto- 
lha, sob um só de seos aspectos, em um sentido incom- 
pleto ou parcial, pois que é tamben] de cima destas ruinas, 
sobre estes despojos mortuarios que se levanta triumphante 
o penda o da gloria e„da im mor tal ida de; • 

Ahi vejo surgir um novo sol fulguiante, para servir de 
fanal aos Navegantes do mar tempestuoso da política; ahi 
um padrao de virtudes e de exemplos edificantes, por onde 
deven) remodelar-se os que quizerem bem servil' á nossa 
cara patria. 

O louro immaicessivel da verdadeira gloria biola vicoso 
sobre a campa dos héroes. Só entao comec/a'o dominio da 
historia, a qual depurando em seo cadinho lodos os factos 



53 



da vida do horneo*, subraette-os ao julgameulo severo da 
opiniao publica, [tara depois abrir ao héroe as portas do 
l'autheon. como a > justo abre as da celestial morada a mes- 
ma chave que eoeerra a habitacao terrena. 

Nao pretendo, porém, fazer a biographia do ¡Ilustre ge- 
neral Gurjáo, a qual deve ser escripia por outra penna, 
melhormente aparada do que a rumba; teubo-a já ouvído 
recitar por duas vezes em oecasioes semelhantes, e posto 
que carera de habilitaeau para imitar esses primorosos es- 
cupios, achei-a com tudo em ambos el les aínda bastante 
descaí nada. 

Já vol-o disse. senhores. este discurso, como usualmente 
se chaina, e em realidade nada mais do que duas palavras 
embebidas de saudade, que a gralidáo vem depór sobre a 
se pulí ura de ura amigo. 

Nao intento, pois, desenrolar «liante de vós esse quadro 
de bem merecidas recompensas, com que o ¡Ilustre tinado 
fóra lanías vezes agraciado pelo goverrio imperial, pela con- 
Manca popular e pelos depositarios da sciencia: nao quero., 
Lana poucOj recordar os relevantissimos serviros por elle 
prestados ao bem geral de sua provincia, e particularmente 
ao partido político, cujos principios elevados e generosos 
sempre defendeo cora inflexibilidade de carácter, tolerancia, 
honradez e dedieacáo, que 1 he eram proprias. 

Qual de vós, com effeito, desconhece com quanta justi- 
ca subió elle todos os pastos de sua arma, até chegar ao de 
brigadeiro, sempre credo r dos encomios de seos superio- 
res e da sympalliia de seos subordinados*? Qual nao sahe 
dos rápidos progressos que fez na escola central da Corte, 
onde obteve o grao de bacharel em mathematicas, sobresa- 



54 



tirado entro os seos condiscípulos, durante o tirocinio, pelo 
talento e ap plica cao ? 

Quera ignora os -importantes servidos que prestou ñas di- 
versas commissoes de que fóra encarregado pelo governo; 
os que, na qualidade de deputado provincial, fez á provincia 
do Amazonas, e á esta na de supplente do mesmo cargo ? 
Quera nao tem noticia de sua dedicagáo á instrucgao, 
exercendo o magisterio gratuitamente no collegio de Santa 
Maria de Belem até (piando te ve de retirar-se para a Corte, 
aíim de ir commandar o primeiro batalhao d'artilharia a pé? 
Quera nao reeonhece, ern summa, que as condecora coes 
honrosas, cora que tbi agraciado pelo governo imperial, até 
mesmo a dignitaria do Cruzeiro que Ihe veio tao tardía, 
quando já a morte nol-o tinha arrebatado, sao apenas exi- 
guas e pobres recompensas em relacao aos relevantes ser- 
vidos cora que dotára o nosso paiz; ás arriscadissimas com- 
missoes que desempenbára no theatro da guerra, sobretudo 
no Chaco; e finalmente aos feitos de bravura pelos quaes 
se assignalára na celebre batalha de 2i de maio e no cora- 
bate de 6 de dezerabro do armo passado, no qual recebeo 
o fe-rimen lo honroso de que veio a succurabir ? 



Nenhum de vos, senhores, certamente o ignora, antes 
pelo contrario sabéis aínda mais que essas promogoes e es- 
sas gracas podem assimilhar-se cora rauila exactidáo a le- 
tras já ha mullo lempo vencidas; pois que o carácter mo- 
desto e desinteressado do tinado brigadeiro Gurjao vedava- 
Ihe o prolestal-as por falta de pagamento. 

E todavía esses títulos e distincgoes nao consliluem o 
brazao do paraense illustre que baixou á carapa; porquanto, 



55 



aquellas honrarías todas de nada Valeriano por si sos, se nao 
recebessem seo esplendor das magnánimas accoese eximias 
qualidades que sempre foram o ornamento do cidadao ve- 
nerando., cujos feitos hoje eommemoramos, dentro desta 
augusta nave, com a pompa tristemente solemne dos fi- 
nados. 

Ouantos nao tenho eu visto, no periodo ainda breve de 
minha vida, cobertos de falsos ouropeis que ellos proprios 
maréam e deslustram por suas acgoes, para os quaes o tú- 
mulo é como que o rocliedo solitario contra o qual se vcm 
quebrar essas ondas de vaidade, recuando pávidas ao abys- 
mo do esquecimento donde as arrancara a mao do acaso !?. . 

Nao, senhores; nao é o falso brilho daquelias decoraQoes 
vaidosas qué recommendam á nossa admiracjío e á posle- 
ridade o nome ¡Ilustre do brigadeiro Hilario Maximiano 
Antunes Gurjáo; nao é nem pode ser essa a causa de ha- 
ver sido tam geralmente sentida e pranleada a sua preciosa 
perda. A consternado que se desenlia em todos os sem- 
blantes dos convivas deste lúgubre festina, o concurso im- 
menso que se grupa em torno ao moimento do finado, ex- 
piimem eloquentemente a gratidao devida ao cidadao pres- 
tante e ao amigo verdadeiro e leal, ao eavalheiro Ihano e 
afíavel, a esse homem admiravel em quena faziam o mais 
bello consorcio todas as virtudes domesticas e moraes, cí- 
vicas e militares: signiíicam a satisfacao de um tributo es- 
pontaneo de veneracao ao dislincto patriota, em urna epocha 
em que infelizmente é tam raro o patriotismo; sao final- 
mente o preito o homenagem que vimos aqui render áquelle 
que, com a heranca da pobreza, íegou á sua estimavel fa- 
milia o nome mais honroso que se Ihe podia legar. 



56 



Eis ahí em perneas palavras, meos senhores, de que mo- 
do eu eomprehendo esta manifestagao esplendida que em 
honra do finado brigadeiro Hilario Maxirniano Án tunes Gur- 
jao estáis dando no momento em que vos fallo. Seosexem- 
plos foram um catectiismo de doctrina em que devem retem- 
perar-se os espiritos verdaderamente liberaes, para pode- 
rem com direito aspirar a esta gloriosa ovagáo que só é 
concedida aos ve rd a de i ros beneméritos. 

Hornera) justo e virtuoso, nao devia por mais lempo per- 
manecer neste mundo de illusoes e de miserias; a De-os 
aprouve, pois, chamal-o ao se ¡o da celestial mansa o, aíim 
de conferir-lhe o premio merecido de suas boas obras, e elle 
voou presuroso e rápido ao seio do Eterno Pai. Fugit velat 
timbra. 

Oremos por sua alma. 



(Do Liberal do Para ) 



DISCURSO 



QÜEj POK OCCASIÁO DA MISSA COM QUE A SOCIEDADE BENEF1CENTE 
ARTISTICA PARAENSE SÜFFRAGOü A ALMA DO GENERAL GÜRJÁO, 
RECITO (J UM MEMfiRO DA .MESMA SOCIEDADE. 

Inflamniaváo. . . . meu peito memorias grandes. 
Quem taes milagres de heroísmo e de honra,- 
Que tanta gloria a tao pequeño bereo, 
Foi tao longe ganhar. 
» 

Senhokes. — Os grandes homens foram em todos os tem- 
pos a gloria da Ierra que os vio nascer. 

Junto deste sarcophago que representa os restos inani- 
mados do muito nobre e invicto general Hilario Maximiano 
Gurjao, nossos coracoes, abatidos pela tristeza de "o termos 
perdido, senlem ao mesmo tempo o fogo sagrado das su- 
blimes virtudes de um coracáo todo inílammado do amor da 
patria, áesse eoracao nobre que. querendo vingar a honra 
de sua patria ultrajada, vóa como um raío á destruir o des- 
pota inimigo de todo aquelle que tem o nomo de brazilei- 
ro. Na formidavel batalha de Itororó o valente soldado é fe- 

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rido, porém sua nobre coragem, animada pelos nobres sen- 
íimantos el "alta missao que desempenhava, nao cede o cam- 
po senao depois de aleancada a victoria !. . . . 

Depois de graves e horriveis soffrimentos occasionados 
por essa bala infernal que penetrara n'um de seos bracos, 
que tanto tinhao Irahalhado na defesa da honra e da digni- 
dade da patria; aos desessete de Janeiro próximo passado, 
ñas ruinas de Humaitá, entrega a sua alma ao Omnipotente. . . 
3ssa alma nobre, cheia de tantas virtudes cívicas, vóa ao seio 
do Eterno, a receber as recompensas immoriaes de sita de- 
dicagao á causa de um paiz ultrajado, que tem por norma 
a religiao e a civilisacao; seo corpo, envolucro d'essa alma 
nobre, desceo ao seio da térra. 



Hoje apenas nos resta urna lembranca desse grande de- 
fensor da patria: lembranca saudosa que nos inspiram suas 
eminentes virtudes pelo amor da nacao, lembranca eterna 
que nos lega seoYiome immortal, pois que urna nacao inteira 
lamenta a perda de um de seos mais intrépidos defensores. 

Nao é súmente urna familia que chora o melhor de seos 
amigos, é o Brazil todo que se enluta com a desapparicao 
de um de seos mais brilhantes astros. 

A sua gloria era a gloria da nacao inteira, porém o seo 
fulgor era todo nosso, porque elle nos pertencia pelos la- 
eos cstreitos que nos ligao. 

A memoria do ¡Ilustre finado é urna das glorias dos pa- 
raenses, que de ve ser perpetuada e transmitida ás futuras 
geracoes. 

Senhores, se boje deploramos a peída do invicto general 
Gurjao; se hoje sentimos as acerbas dores que compungem 



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sua ¡Ilustre familia: se hoje admiramos as suas virtudes e 
dedicacóes pela patria, (levemos deixar á posteridade unía 
memoria que atteste e anime as virtudes e dedicacóes pa- 
trióticas do ¡Ilustre general: um monumento onde outros 
soldados paraeoses se inspirem da nobre missáo de defen- 
der os direilos sagrados da patria. Sejamos lodos unáni- 
mes ueste dever de gratidáo nacional: lembremo-nos que 
somos brazileiros e que devenios todos, de commum accor- 
do, trabalhar para commemorar o nome dos grandes ho- 
mens do nosso paiz; assim atteslaremos ás geracoes vin- 
douras nossa apreciado dos virtudes e dedicacao de nossos 
comprovincianos, que mais trabalharao para a honra e glo- 
ria da naca o. 

Praza a Deus que, desde este momento, todos que se a- 
eháo em roda deste catafalco funéreo sejao outros tantos 
apostólos para levar-se a effeito esta divida de gratidao. 

Sr. Francisco Pedro Gurjao, V. S., chefe da illustre fami- 
lia do finado general, quena receber os mais verdadeiros 
pezames e sentimenlos de dór pela perda que acabaes de 
solTrer na pessoa do vosso illustre e nobre irmao o gene- 
ral Hilario M. Antones Gurjao, nosso distincto e bravo com- 
provinciano: transmitti á vossa illustre familia estes mesmos 
sentimenlos que, em nome da Sociedade Beneficente Artis- 
tica Paraénse, aquí manifestamos. 

Belem, 15 de marro de 18(>9. 



Diario do GrSrPara